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“Hoje, os pais negociam demais com as crianças. Por que não podem dizer não e pronto?”

Seu filho se recusa a ficar no cadeirão? Chuta o seu banco no carro ao ser contrariado? Empurra o irmão? Para a coach de família, a norte-americana Catherine Pearlman, mãe de Casey, 14 anos, e Emmett, 11, a resposta dos pais para todas essas situações deve ser a mesma: desviar o olhar. É isso que ela reforça no recém-lançado Ignore It! How Selectively Looking the Other Way Can Decrease Behavioral Problems and Increase Parenting Satisfaction (Ignore! Como Desviar o Olhar Seletivamente Pode Diminuir os Problemas de Comportamento e Aumentar a Satisfação dos Pais, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil).

A técnica, como diz o título, consiste em negar a atenção que a criança pede ao fazer birras ou se portar mal. OK, você já deve estar se perguntando se isso resolveria, certo? “A maioria dos pais acredita que todo comportamento inapropriado ou desagradável deve ser disciplinado. A única maneira que eles conhecem para impedir isso é repreender, dar um ‘sermão’ ou punir. Às vezes, no entanto, o objetivo da malcriação é simplesmente provocar os pais. Por isso, quando eles reagem, seja como for, o comportamento é reforçado”, acredita.

Eventualmente, ao ser ignorada, a criança irá desistir da “tática”, garante a especialista. Espetáculo sem plateia, afinal, não fica em cartaz. Mas a principal vantagem para os pais, na opinião da coach, é o alívio que sentem ao não reagir a cada uma das 285 birras que uma criança normal faz todo dia. “A batalha de forças cessa e a paternidade se torna mais agradável. Quando filhos e pais brigam menos e se divertem mais, a relação ganha espaço para florescer.” A seguir, confira a entrevista exclusiva que ela concedeu à CRESCER.
O que significa, na prática, ignorar seletivamente certos comportamentos das crianças?

Toda vez que uma criança choraminga, reclama ou faz birra, os pais devem olhar para o outro lado. Claro que o pai e a mãe sabem agir com firmeza e dizer não. Mas, com frequência, quando estão cansados ou distraídos [e acabam desistindo], esse tipo de ação da criança é eficiente para ela conseguir o que quer. Então, eles devem esperar [o mau comportamento] cessar para se voltar a ela. Dessa forma, o filho irá aprender que aquela ação não funciona mais e, em vez disso, vai agir de maneira mais apropriada.
Negociar com as crianças não resolve?

Os pais negociam demais com elas na minha opinião. A maioria acha que, assim, todos saem ganhando. Quando, na realidade, só a criança vence. Os pais me perguntam: “Por que não posso apenas dizer que é hora de desligar a TV e pronto? Por que um biscoito não pode ser apenas um biscoito? Por que meu filho não pode comer o que está no prato sem discussão?”. É exaustivo! Acontece que as crianças aprendem a usar a negociação rapidamente em favor próprio. Faz com que consigam mais cinco minutos de brincadeira ou mais um episódio de Bob, O Construtor ou aquele biscoito extra. Mas a boa notícia para os pais é que elas tendem a parar de negociar tudo em suas vidas uma vez que acabem as recompensas a esse tipo de comportamento [isto é, a negociação].
Você também destaca, no livro, o efeito do “dar um tempo”…

O time-out [que é dar um tempo em inglês] é uma ferramenta excelente e que complementa o meu método. A ideia é que a criança deixe de receber atenção pelo mau comportamento [como morder, bater, gritar ou atirar objetos]. Mas, nesse caso, os pais devem levar o filho para outro local, avisando-o sobre o motivo, até que se acalme, peça desculpas ou pare de fazer o que estava fazendo de errado. Quando essa tática é administrada corretamente, toda a ênfase dada ao comportamento negativo é removida.
Mas o time-out não é uma forma de receber atenção?

Acontece que, às vezes, o método de ignorar não é apropriado dependendo do lugar. Por exemplo, se a criança está fazendo algo perigoso, os pais têm de tirá-la daquela situação. E, a partir daí, a tática do ignorar pode começar. O time-out é diferente de punir ou disciplinar. É uma maneira simples de ajudar uma criança a interromper uma ação e dar uma chance a ela de recomeçar. Os pais vão retirar a atenção dela, porém, continuarão ouvindo-a. Quando ela parar e se acalmar, eles podem interromper o time-out e seguir em frente.
Ignorar, de modo geral, parece simples. Por que os pais não conseguem, então?

Porque são humanos. Quando alguém grita com a gente, é natural querer gritar de volta. Vai contra a nossa maneira natural de reagir, por isso é tão difícil. Além disso, mudamos o modo de ser pais e mães nas últimas décadas. As crianças brincavam mais sozinhas. Hoje, todas as atividades são programadas. E a expectativa é que os pais deem a elas toda a atenção do mundo. Elas aprendem, então, a solicitar tal dedicação. A pressão para os pais serem perfeitos e terem crianças exemplares também aumentou. Os pais sentem que sempre precisam fazer algo para melhorar a educação dos filhos. Mas isso não está funcionando.
E o que os pais não devem ignorar?

Eles podem desviar o olhar de reações exageradas e lágrimas de mentira. Mas, quando o choro realmente é de tristeza ou de dor, os pais têm de atender a essas questões. Assim como quando a criança ou outros ao redor correm o risco de se machucar. O que também jamais deve ser ignorado pelos pais são os comportamentos desejáveis, como, por exemplo, quando o filho é gentil, escuta, ajuda o irmão, cumpre seus deveres etc. Esses devem ser recompensados com elogios, atenção e até mesmo com outros benefícios de modo que os pequenos se sintam encorajados a agir de maneira certa.
Em resumo, o que a técnica do “ignore” ensina às famílias?

Que todo comportamento recompensado será repetido. Mesmo gritar e argumentar são recompensas. Sendo assim, os pais devem aprender a reforçar as reações positivas que eles gostariam de ver com mais frequência e evitar destacar as contraproducentes [choramingar, reclamar e fazer birra]. Costumo dizer que o meu método é ótimo com crianças de 2 a 21 anos. Quando os pais notam que a reações podem mudar rapidamente, eles se sentem mais motivados. E a paternidade torna-se mais agradável. Uma vez que a batalha de forças tem fim, os relacionamentos melhoram. Desde que meu livro foi publicado, aliás, muitas pessoas têm me dito que o aplicaram também no casamento ou no trabalho.

Fonte: Crescer

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