Quase 2 mil baianos esperam por transplantes de um órgão

Na lenda católica, um dos maiores milagres da medicina foi um transplante de perna realizado por Cosme e Damião. Passados quase dois milênios, a associação entre transplante e milagre ainda está presente no imaginário popular, sobretudo na Bahia, onde, até junho, 1.915 pessoas aguardavam por um órgão - no país são 32.956. A fila do transplante no estado é a quarta maior do Brasil, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Em agosto, segundo a Central de Transplantes da Bahia, havia 1.791 pessoas na fila. O estado não tem informações sobre transplante de medula óssea e coração. O tempo médio de espera varia a depender do órgão a ser transplantado. Na Bahia, quem mais espera é quem precisa de um rim - em média, 22,9 meses. No caso da córnea, a espera média é de um ano e dois meses. Com o fígado, são seis meses e dois dias. Mas há quem espere muito mais do que a média do tempo. Até porque, antes de entrar na fila, muita gente pena em busca de diagnóstico. Caso de Gildenice Souza Santos. Há 9 anos, ela luta contra uma cirrose hepática. No início de tudo, morava na cidade de Rio Real e, por causa da doença, se transferiu para Aracaju (SE). Nessa época, sentia dores fortíssimas e ninguém conseguia diagnosticar de que mal ela sofria. Só em Salvador, no Hospital das Clínicas, conseguiu o diagnóstico, após cinco anos. Há quatro, em 2013, entrou na fila de transplantes. A Sesab diz, porém, que sua inscrição foi em 4 de abril de 2016. 

Longa espera : Gildenice é a segunda paciente mais antiga da fila. Hoje mora em Camaçari e, depois de várias crises em que chegou a vomitar sangue e diversas internações na UTI, ainda espera por um fígado novo. Uma verdadeira via-crúcis pela vida. “Tenho esperanças de que vou ter uma vida normal. Esse fígado vai chegar um dia”, acredita. Mas poucos esperaram tanto quanto Silvio Roberto das Virgens Pereira, 55 anos, um caso incrível de esperança. Nos 17 anos que esperou por um rim, Silvio fez 2.905 seções de hemodiálise. No dia 31 de julho do ano passado, finalmente recebeu um novo rim. Hoje tem uma vida normal. “Gostaria que outras famílias tivessem essa iniciativa. É muita gente esperando por uma rim, é muita gente em máquinas de hemodiálise, é muita gente precisando de fígado, de córneas. Pra que morrer e levar tudo isso?. Sou grato até à minha doença. Porque ela me ensinou a me transformar como ser humano”.

Sem diagnóstico: A espera da advogada Carla Lessa, 38, moradora de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, ficou mais longa por falta de diagnóstico correto. Ela se inscreveu há cinco anos para receber um fígado, afetado por uma doença que causa hemorragia em diversos órgãos, a Síndrome de Rendu-Osle-Weber. Atualmente, é uma entre os 37 cadastrados como inativos, devido à falta do diagnóstico correto, o que só veio no passado. O caso dela está em processo de reavaliação para entrar na fila das 14 pessoas para receber um fígado. “Estou fazendo exames para me recolocar na fila. Já fiz dois exames e talvez tenha de fazer mais um para me internar. Minha situação está muito pior hoje, meu intestino e o baço já foram afetados. Acredito que em 30 dias estou de novo na lista de espera”, diz. A advogada conta que precisa fazer transfusão de sangue ao menos uma vez a cada três meses.

Critérios: A variedade na média do tempo de espera se deve aos critérios para escolha dos pacientes transplantados. O critério do rim, por exemplo, é imunológico. Doador e receptor precisam ter características imunológicas compatíveis para minimizar os riscos de rejeição. “O teste final é uma prova cruzada que confirma quem são os receptores mais aptos”, explica Carolina Sodré, coordenadora da Central Estadual de Transplantes. Córnea, coração, pâncreas e pulmão têm o mesmo critério: o cronológico. Ordem de chegada. A fila do fígado geralmente é mais curta porque o critério principal é a gravidade. O fígado, assim como rim, pulmão, pâncreas e intestino, precisa ser retirado enquanto o paciente com morte encefálica ainda está com o coração batendo – e isto vale também para o coração. O ideal é que a coleta seja feita em até 24 horas. Já as córneas, podem ser coletadas em seis horas. Depois, podem ficar por até 14 dias no banco.

Recusa : Mas o difícil na Bahia, estado com mais 15 milhões de habitantes, é ter órgão para doar. Isto porque os familiares dos mortos recusam a doação. Somente no primeiro semestre, por exemplo, das 158 famílias entrevistadas por equipes médicas na Bahia, 62% recusaram o pedido de doação. Pesquisa da ABTO aponta ainda que uma em cada dez doações na Bahia é de pessoas vivas e que, entre as principais razões para a negativa das famílias, estão a falta de conhecimento sobre o desejo da pessoa falecida, sobre a morte encefálica e ainda a crença religiosa. Mesmo diante desse quadro, houve aumento nas doações, que em cinco anos saíram de 77 para 107. Até agosto deste ano, foram 88. Para entidades como a Associação de Pacientes Transplantados da Bahia, o que prejudica a captação de mais órgãos é a falta de campanhas educativas, o que Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) diz realizar durante o ano, intensificadas em setembro. Na Bahia, ainda há o problema do acesso a remédios para evitar que o corpo não recuse o órgão transplantado. Os medicamentos só podem ser encontrados nas secretarias estaduais de saúde ou em hospitais, devido ao seu alto custo e a relativa baixa demanda. O Ministério Público até já chegou a entrar com uma ação para obrigar o governo a disponibiliar um dos remédios, a Ciclosporina. Segundo a Sesab, todos estão disponíveis.

0 comentários:

Postar um comentário

©Site fundado: 09/10/2008 - Por: *Valter Egí - Todos direitos reservados à Jacobina News*