Vacina contra o Zika deve chegar em três anos ao Brasil

Proteger bebês ainda dentro do útero contra o zika tornou-se um dos maiores desafios de pesquisadores desde novembro de 2015, quando testes revelaram a capacidade do vírus de penetrar a placenta das gestantes e atingir o sistema nervoso central dos fetos. A consequência mais dura é a microcefalia, já confirmada em 2.698 crianças, de acordo com o Ministério da Saúde. Agora, os primeiros estudos contra o vírus surgem com resultados promissores. Desenvolvida por pesquisadores do Instituto Evandro Chagas (IEC), do Pará, em parceria com a Universidade do Texas, nos Estados Unidos, uma nova vacina – que já havia se mostrado eficiente para imunizar os organismos contra o zika –, também provou ser capaz de impedir sua transmissão de mães para filhos. Os resultados foram publicados ontem na revista especializada Cell. Segundo o diretor do IEC, Pedro Vasconcelos, estima-se que um novo surto de zika surja entre os próximos cinco e dez anos. Por isso, a expectativa é de que a vacina já esteja disponível para a população até o final de 2020. Em entrevista, o pesquisador fala sobre os detalhes da descoberta e os esforços para que o produto chegue até o mercado.

Como a vacina age?

Hoje, em torno de 30 vacinas estão sendo desenvolvidas contra o zika. Nós, junto à Universidade do Texas, chegamos a conclusão de que utilizar o vírus vivo, atenuado, seria a forma mais rápida. Iniciamos os estudos em fevereiro de 2016 e os testes laboratoriais em abril. Os camundongos vacinados responderam com a produção de anticorpos, que neutralizaram a ação do vírus selvagem, tornando-os imunes. O teste foi feito em macacos com os mesmos resultados. Também foi testada no Aedes aegypti e não os infectou. Isso é importante, mosquitos são os vetores da doença e quando infectados espalham a epidemia.

Ela é capaz de impedir a infecção de bebês?

Nesse novo experimento pegamos dois grupos de fêmeas de camundongo e aplicamos a vacina em um e, no outro, uma solução salina. Quatro semanas depois, exames de sangue mostraram alta concentração de anticorpos apenas no grupo vacinado. Essas fêmeas foram fecundadas e as desafiamos com o vírus selvagem. Observamos que os animais vacinados não apresentaram viremia (presença do vírus no sangue), não houve passagem do vírus pela placenta e nenhuma lesão nos bebês. Foi um achado fundamental, nunca antes feito.

Mulheres gestantes poderiam ser vacinadas?

Não. Como a vacina é feita a partir do vírus vivo, nós contraindicamos, pois a gestante e o bebê podem desenvolver a doença. Mas nesse estudo também testamos a vacina da Moderna Therapeutics, que por não conter vírus vivo pode ser utilizada em gestantes. A diferença é que ela precisa de duas ou até uma terceira dose. A nossa precisa de apenas uma dose para a vida inteira. Crianças menores de 10 anos poderiam ser vacinadas.

Quando a vacina chegará ao mercado?

Quem a produzirá em escala industrial é a Fiocruz. Por se tratar de organismo geneticamente modificado, é preciso aprovação de órgãos como a CTNbio, e da Anvisa (para liberação dos testes em humanos), além da Plataforma Brasil, do Ministério da Saúde. Os testes em humanos devem durar cerca de três anos. Nossa expectativa é que uma segunda epidemia de zika ocorra entre os próximos cinco e dez anos. Por isso, esperamos que até o final de 2020 a vacina já esteja no mercado.

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